Três jogos, três derrotas, 14 gols sofridos e nenhum marcado. A estreia da República Democrática do Congo - então conhecida como Zaire - na Copa do Mundo da Fifa, em 1974, na Alemanha Ocidental, foi um capítulo doloroso que misturou fracasso esportivo, humilhação pública e injustiça bastidoreira. Cinquenta e dois anos depois, os Leopardos voltam ao torneio com uma identidade renovada e uma missão que vai muito além do campo: representar um país marcado por décadas de conflito, corrupção e resiliência.
A edição atual do mundial tem sido palco de histórias que transcendem o esporte - e o Congo não é exceção. Na fase de grupos, a seleção congolesa fez o que a geração de 1974 jamais conseguiu: marcou seu primeiro gol numa Copa do Mundo, conquistou seu primeiro ponto contra Portugal e avançou às oitavas de final após bater o Uzbequistão. Para quem acompanha o futebol africano e quer entender como o mercado e os bastidores do torneio se movimentam paralelamente ao que acontece em campo, veja detalhes sobre o mercado durante a Copa do Mundo 2026. Agora, o time comandado pelo técnico francês Sébastien Desabre enfrenta a Inglaterra nas oitavas, em Atlanta, numa partida que o jornalista congolês Justin Kabala Mwana, veterano de décadas de cobertura esportiva, descreve como uma oportunidade para o país "reconquistar sua unidade e dignidade".
O vexame que não foi apenas esportivo
O Zaire chegou à Copa de 1974 como o primeiro país da África subsaariana a se classificar para a fase final do torneio - uma conquista histórica num continente que ainda lutava para afirmar sua presença no futebol global. A seleção vinha de uma trajetória respeitável: três títulos africanos de clubes entre 1967 e 1973 e duas Copas Africanas das Nações, a última conquistada apenas três meses antes do Mundial. O presidente Mobutu Sese Seko havia recompensado cada jogador com uma casa e um carro e assumiu pessoalmente o controle das preparações.
Mas por trás do otimismo havia uma crise silenciosa. Antes do jogo contra a Iugoslávia, os jogadores se recusaram inicialmente a entrar em campo em protesto pelo não pagamento de diárias pagas pela Fifa - dinheiro que, segundo os atletas, havia sido desviado por dirigentes da federação. O goleiro reserva Mohamed Kalambay resumiu o estado de espírito da delegação numa entrevista ao programa Sporting Witness, em 2022: "Não éramos um time ruim. Nos faltava uma coisa pequena: reconhecimento. Sem receber, você não tem moral para jogar. E foi exatamente isso que aconteceu." Os jogadores entraram em campo, mas foram goleados por 9 a 0 - o goleiro Kazadi Mwamba foi substituído ainda no primeiro tempo, com o placar em 3 a 0, e o atacante Pierre Ndaye Mulamba foi expulso logo depois.
Ilunga, o chute e a verdade por trás do escândalo
O episódio mais lembrado daquela Copa, porém, veio no último jogo do grupo, contra o Brasil. Com o Zaire já eliminado e perdendo por 2 a 0, o lateral-direito Mwepu Ilunga saiu correndo da barreira e chutou a bola para longe enquanto a seleção brasileira se preparava para cobrar uma falta. O lance rendeu uma cartela amarela e décadas de ridicularização - chegou-se a sugerir que os jogadores africanos sequer conheciam as regras do futebol.
Quase 40 anos depois, em entrevista à BBC em 2010, cinco anos antes de sua morte, Ilunga revelou a verdade: "Eu conhecia as regras do futebol. Fiz aquilo de propósito. Queria levar um cartão vermelho para poder sair de campo. Por que eu deveria jogar em benefício de dirigentes que desviaram o dinheiro dos jogadores?" O árbitro não atendeu ao seu desejo e Ilunga permaneceu em campo. "Não me arrependo de nada", afirmou. O gesto, relido à luz dessa confissão, deixou de ser uma piada e passou a ser um ato de resistência.
O Rumble in the Jungle e a outra face de 1974
Meses após a debacle alemã, o mundo voltou os olhos ao mesmo país por razões completamente diferentes. Em 30 de outubro de 1974, o Estádio du 20 Mai, em Kinshasa, recebeu o que ficou conhecido como o Rumble in the Jungle - a luta pelo título mundial dos pesos pesados entre Muhammad Ali e George Foreman. Mobutu pagou 5 milhões de dólares a cada um dos lutadores, via o promotor Don King, para sediar o evento na capital congolesa.
Kabala, que cobriu o combate, recorda uma atmosfera de carnaval numa arena lotada, com a maioria do público torcendo por Ali. Usando sua famosa tática do "rope-a-dope" - absorvendo os golpes de Foreman encostado nas cordas para desgastá-lo -, Ali derrubou o adversário no oitavo round e reconquistou o cinturão indisputado dos pesados. "Naquele dia, foi uma festa em todo o país. As pessoas comemoraram a noite toda. A cerveja correu por 48 horas", relembrou Kabala. O Zaire havia sido descolado na Copa do Mundo, mas havia se colocado no centro do universo esportivo global em menos de seis meses. "Geopoliticamente, o presidente Mobutu deu um verdadeiro golpe midiático. Seu país foi descoberto e passou a ser conhecido no mundo inteiro", afirma o jornalista.
52 anos depois: um país diferente, uma seleção nova
Em 1997, o regime de Mobutu chegou ao fim e o país foi rebatizado de República Democrática do Congo. Dois conflitos armados entre 1996 e 2003 envolveram nove nações africanas e custaram até seis milhões de vidas. Os jogadores de 1974 não foram poupados pelo tempo nem pela história: Ilunga declarou em 2002 que vivia "como um vagabundo", e o artilheiro Ndaye foi baleado na perna durante uma invasão domiciliar em 1996, antes de emigrar para a África do Sul.
A seleção atual é outra. Apenas seis dos jogadores do elenco nasceram no Congo e nenhum atua no campeonato doméstico, que sofreu com anos de má gestão da federação nacional, a Fecofa. Desabre, no comando desde 2022, construiu um grupo coeso apostando na diáspora congolesa - estratégia adotada por várias seleções africanas nos últimos anos. O zagueiro Axel Tuanzebe, nascido no Reino Unido, marcou o gol decisivo no playoff intercontinental contra a Jamaica que garantiu a vaga no Mundial. "Somos muito privilegiados de ter tudo o que precisamos. Não nos falta nada, e isso nos permite ir a campo e dar o melhor de nós", disse ele à BBC.
O atacante Yoane Wissa sintetizou o peso do momento após a vitória sobre o Uzbequistão: "Não é fácil no nosso país. Há uma guerra no leste do Congo. Cada vez que vestimos essa camisa, pensamos neles." A torcedora Tanya Maria, acompanhando o time nos Estados Unidos, completou o quadro: "A Copa deu às pessoas um investimento no nosso país. E quando as pessoas se importam com um país, é aí que a mudança pode acontecer." Há 52 anos, o Congo chegou ao mundo pela primeira vez. Desta vez, chega de cabeça erguida.